DRE no varejo: como montar e analisar (guia do contador)
Resposta rápida: A DRE de varejo segue a estrutura prevista na Lei 6.404/76 (receita bruta → deduções → CMV → lucro), mas o resultado da loja depende de três linhas que o modelo genérico ignora: CMV apurado por inventário (estoque inicial + compras líquidas − estoque final), quebras e perdas de estoque com visibilidade própria, e margem aberta por categoria. Com o ERP do cliente exportando esses dados já conciliados, o contador monta a DRE em minutos e usa a reunião mensal de análise como serviço consultivo.
Todo lojista que recebe uma DRE em modelo genérico faz a mesma pergunta: "vendi mais que no mês passado, por que sobrou menos?". E a demonstração não responde: mostra receita, um bloco de custo e um bloco de despesa — nenhum deles conta o que aconteceu na loja.
No varejo, o resultado se esconde em três lugares: no CMV (que a planilha quase sempre calcula errado), nas quebras de estoque (que somem dentro do custo) e no mix de categorias (que a média do lucro bruto achata). Este guia mostra a estrutura da DRE de comércio, como apurar cada linha e como transformar a entrega mensal em reunião de análise.
O que muda na DRE de varejo (e por que o modelo genérico falha)
A Demonstração do Resultado do Exercício é uma das demonstrações contábeis obrigatórias previstas na Lei 6.404/76, cujo artigo 187 define a sequência mínima de linhas — receita bruta das vendas, deduções, custo das mercadorias vendidas, lucro bruto, despesas operacionais e resultado do período. Essa estrutura vale para qualquer empresa. O problema não é a lei: é o que se coloca dentro de cada linha quando a empresa é uma loja.
Em comércio, o CMV é de longe a maior linha de custo — em muitas lojas consome a maior parte da receita, deixando ao lucro bruto uma fatia estreita. A consequência é direta: um erro pequeno no CMV desloca o resultado inteiro.
São três os pontos cegos do modelo genérico aplicado a lojas:
- CMV estimado em vez de apurado. Muita DRE de comércio calcula o custo por percentual fixo sobre a venda — aproximação aceitável em fluxo de caixa, falha como demonstração de resultado.
- Quebras diluídas. Validade vencida, avaria e furto entram como custo sem nome próprio. O número aparece, a causa não.
- Resultado consolidado. Uma única margem para a loja inteira, quando o lojista precisa saber quais categorias sustentam o negócio e quais o drenam.
O ângulo do contador é esse: a DRE que o cliente lojista entende é a que espelha a operação dele. Quando as linhas conversam com o que ele vê no balcão e no estoque, a demonstração vira base de decisão.
Estrutura da DRE para comércio, linha a linha
A tabela abaixo traduz a estrutura contábil para a realidade de uma loja e indica de onde sai cada dado.
| Linha da DRE | O que entra no varejo | De onde vem o dado |
|---|---|---|
| Receita bruta de vendas | Vendas no balcão e no PDV + vendas com nota de saída para PJ | NFC-e e NF-e de saída |
| (−) Devoluções e cancelamentos | Trocas com devolução de valor, vendas canceladas | NF-e de devolução, relatório de cancelamentos do PDV |
| (−) Tributos sobre vendas | ICMS, PIS e COFINS incidentes na venda (ou o valor do DAS, no Simples) | Apuração fiscal / escrituração |
| (=) Receita líquida | Base real para o cálculo de margem | Calculada |
| (−) CMV | Custo das mercadorias efetivamente vendidas no período | Estoque inicial + compras líquidas − estoque final |
| (=) Lucro bruto | Quanto sobra antes de rodar a operação | Calculada |
| (−) Despesas com vendas | Taxas de cartão, comissões, frete de entrega, marketing | Conciliação de recebíveis, contas a pagar |
| (−) Despesas administrativas | Aluguel, folha, energia, software, honorários | Contas a pagar |
| (−) Resultado financeiro | Juros de antecipação de recebíveis, juros de capital de giro | Conciliação bancária |
| (=) Resultado do período | O número que o lojista de fato persegue | Calculada |
Dois detalhes derrubam boa parte das DREs de loja.
O primeiro é o ICMS-ST: no varejo, boa parte do mix é comprada com substituição tributária já recolhida, sem débito de ICMS na saída. Aplicar uma dedução genérica sobre toda a receita infla as deduções e derruba a receita líquida.
O segundo é jogar taxa de cartão e frete em "despesas gerais". A taxa de cartão varia com meios de pagamento e parcelamento — é despesa de venda e precisa de linha própria. Frete sobre compras compõe o custo de aquisição do estoque — a NBC TG 16 inclui os custos de transporte, seguro e manuseio no custo de aquisição — e portanto caminha com o CMV, não com as despesas do período.
CMV na DRE: como calcular no varejo
A fórmula é conhecida e não muda:
CMV = estoque inicial + compras líquidas do período − estoque final
O que muda é a qualidade de cada um dos três termos. O CMV "de planilha" erra por motivos previsíveis:
- Compras sem baixa de XML. A mercadoria entrou na prateleira, mas a nota nunca foi lançada no estoque: as compras do período ficam subavaliadas e o CMV sai menor que o real.
- Bonificações tratadas como compra normal. Mercadoria recebida em bonificação tem custo próprio; somá-la às compras pelo valor cheio distorce o custo médio.
- Devoluções a fornecedor ignoradas. Compras líquidas são compras menos devoluções — sem esse abatimento, o custo do período incha.
- Estoque final "chutado". Sem inventário, o estoque final vira estimativa e o CMV herda o erro inteiro.
Veja um fechamento mensal de um mercado de bairro (exemplo ilustrativo, valores arredondados):
| Item | Valor |
|---|---|
| Estoque inicial | R$ 180.000 |
| (+) Compras do período | R$ 320.000 |
| (−) Devoluções a fornecedor | R$ 12.000 |
| (=) Compras líquidas | R$ 308.000 |
| (−) Estoque final apurado por inventário | R$ 170.000 |
| (=) CMV | R$ 318.000 |
Se o mesmo mercado tivesse estimado o estoque final sem contagem — digamos, R$ 182.000 — o CMV cairia para R$ 306.000 e o lucro bruto apareceria R$ 12.000 maior do que foi. Esse é o valor que sumiu do estoque sem passar pelo caixa: quebra.
O sistema do cliente resolve isso na origem: entradas importadas por XML alimentam compras e custo do item sem digitação, e o inventário rotativo mantém o estoque final confiável. Quando o escritório também baixa os XMLs dos clientes automaticamente pelo CNPJ, conferir o que o lojista lançou contra o que os fornecedores emitiram deixa de ser trabalho manual.
Quebras, perdas e devoluções: onde entram na DRE
Quebra de estoque é mercadoria que saiu sem virar venda: validade vencida, avaria, furto. Na aritmética do inventário periódico, ela acaba caindo dentro do custo do período: o item simplesmente não está mais no estoque final, e a diferença aparece embutida no CMV. E é aí que o problema desaparece de vista — inclusive porque a NBC TG 16 determina que valores anormais sejam reconhecidos como despesa do período em que ocorrem, sem transitar pelos estoques, dentro do mesmo grupo, mas de forma identificada.
Se a quebra fica diluída no CMV, o lojista lê um custo alto e conclui que "o fornecedor aumentou". Não aumentou: ele está jogando mercadoria fora. São duas causas com ações corretivas opostas — renegociar compra versus ajustar pedido, giro e conferência de recebimento.
Por isso, tanto pelo critério normativo quanto na visão gerencial da DRE, vale destacar as perdas em linha própria, logo abaixo do CMV ou como abertura dele. O lucro bruto não muda; a leitura muda inteiramente. Um mercado que descobre que a quebra de perecíveis equivale a dois pontos da receita passa a tratar hortifrúti como problema de compra, não de preço.
Já as devoluções de venda são dedução da receita bruta, não despesa. Lançá-las como despesa operacional preserva o resultado final, mas distorce a receita líquida e, com ela, todos os percentuais de margem.
O peso varia por segmento: em mercados o vilão é o perecível; em drogarias, a validade de medicamentos de baixo giro; em moda, a sobra de grade. Um sistema que registra a baixa por motivo (avaria, validade, furto) entrega a quebra já classificada, pronta para virar linha da DRE gerencial.
Margem por categoria: a DRE gerencial que o lojista entende
A DRE contábil olha a empresa inteira — é o que a norma pede. Mas nenhum lojista decide sobre "a empresa inteira": ele decide o que comprar, expor e promover, e isso acontece no nível da categoria.
A passagem de uma visão para outra é simples: mantenha a estrutura da DRE e abra receita líquida, CMV e lucro bruto por grupo de produto. O total continua batendo com a demonstração contábil; o que aparece é a distribuição.
Um exemplo do que essa abertura revela (exemplo ilustrativo):
| Categoria | Participação na receita | Margem bruta |
|---|---|---|
| Perfumaria e cosméticos | 22% | 38% |
| Higiene e cuidados pessoais | 18% | 27% |
| Medicamentos genéricos | 25% | 21% |
| Medicamentos de marca (tarjados) | 35% | 12% |
A média ponderada dessa drogaria fica em torno de 21% — um número que não descreve nenhuma das quatro categorias. O tarjado, com mais de um terço do faturamento, trabalha com margem baixa; perfumaria, com um quinto da receita, gera desproporcionalmente mais lucro bruto. A conversa que nasce daí — exposição, mix de compra, desconto — é de negócio, não de fechamento fiscal.
Fazer essa abertura à mão é inviável mês a mês. Ela só existe se o cliente vender com produto identificado no PDV e comprar com entrada de XML: aí o relatório de margem por categoria sai pronto e o contador apenas o encaixa na DRE gerencial.
Como montar a DRE do cliente com dados do ERP
O roteiro operacional cabe em cinco passos:
- Exportar faturamento e devoluções. Vendas por NFC-e e NF-e do período, separadas de devoluções e cancelamentos — receita bruta e deduções.
- Fechar as entradas por XML. Notas de compra lançadas no estoque, com devoluções a fornecedor abatidas e bonificações identificadas.
- Fechar o inventário. Contagem total ou rotativa, com a diferença entre saldo contábil e contado registrada por motivo — é daí que sai a quebra.
- Classificar as despesas. Separar despesa de venda (taxa de cartão, comissão, frete de entrega) de administrativa e de resultado financeiro.
- Consolidar e abrir por categoria. Montar a DRE contábil e, ao lado, a abertura gerencial por grupo de produto.
Quando o cliente usa um sistema de gestão de varejo, muda a natureza do trabalho: vendas, entradas e estoque chegam conciliados, com XMLs organizados e relatórios fiscais prontos — o contador monta a DRE em vez de reconstruir os dados que deveriam alimentá-la.
O contrário é o ponto de decisão. Cliente sem sistema significa DRE por estimativa: CMV percentual, estoque final aproximado, quebra invisível e margem por categoria inexistente — e nenhuma técnica contábil corrige ausência de dado na origem. Por isso vale tratar a ferramenta do cliente como assunto do escritório; os critérios estão em qual sistema de gestão indicar para clientes.
A reunião de DRE como momento consultivo
Uma DRE enviada por e-mail é um anexo. A mesma DRE conversada por trinta minutos é um serviço. O roteiro é curto e sempre igual:
- Resultado contra o mês anterior e contra o mesmo mês do ano passado (5 min). Sem interpretação — só o número na mesa.
- CMV e quebras (10 min). O custo subiu por compra ou por perda? Qual categoria concentra a quebra?
- Margem por categoria (10 min). Onde o lucro bruto nasce e onde ele evapora.
- Uma ação prática para o mês seguinte (5 min). Uma só, com responsável e prazo.
Nada nesse roteiro exige mais horas de fechamento — exige dados certos na origem. E a conversa se conecta com o que já é entregue: quando a apuração do Simples Nacional dos clientes do varejo mostra o faturamento subindo em direção a uma faixa superior, a DRE é onde isso vira decisão de preço e de mix.
O efeito sobre a percepção de honorário é o ponto. Quem recebe guias avalia preço; quem recebe leitura de resultado avalia valor. É a base da contabilidade consultiva apoiada em dados do varejo: o contador passa a ser quem explica ao lojista por que o mês fechou como fechou.
Perguntas frequentes
Como fazer a DRE de uma loja?
Parta da receita bruta de vendas (NFC-e e NF-e de saída), deduza devoluções, cancelamentos e tributos sobre venda para chegar à receita líquida. Subtraia o CMV apurado por inventário para obter o lucro bruto e, em seguida, as despesas de venda, administrativas e o resultado financeiro até o resultado do período.
O que é CMV na DRE e como calcular?
CMV é o custo das mercadorias efetivamente vendidas no período, a maior linha de custo do varejo. Calcula-se por estoque inicial mais compras líquidas do período menos estoque final. Compras líquidas já descontam devoluções a fornecedor, e o estoque final precisa vir de inventário, não de estimativa.
Onde entram as perdas e quebras de estoque na DRE?
Quebras por validade, avaria e furto caem no custo do período, já que o item não aparece no estoque final. A NBC TG 16 pede que valores anormais sejam reconhecidos como despesa do período de forma identificada — e, na visão gerencial, o melhor é destacá-las em linha própria abaixo do CMV: diluídas no custo, escondem se o problema é preço de compra ou perda operacional.
Qual a diferença entre DRE contábil e DRE gerencial?
A DRE contábil segue a estrutura e os critérios normativos, cobre a empresa inteira e serve a fins societários e fiscais. A gerencial parte do mesmo total, mas abre o resultado por categoria, loja ou canal e destaca linhas como quebra — para orientar decisão comercial, não para cumprir obrigação.
Conclusão
A DRE de varejo que orienta decisão tem três características: estrutura correta (deduções e despesas de venda no lugar certo), CMV apurado por inventário em vez de estimado e lucro bruto aberto por categoria com a quebra visível. Nada disso é dificuldade técnica de contabilidade — é dependência de dado limpo na origem. Quando o cliente opera com um sistema que integra venda, entrada por XML e estoque, o fechamento encurta e a reunião mensal ganha conteúdo.
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Referências e fontes
- Lei nº 6.404/1976, art. 187 — estrutura da Demonstração do Resultado do Exercício — Planalto.
- NBC TG 26 (R5) — Apresentação das Demonstrações Contábeis.pdf) — CFC.
- NBC TG 16 (R2) — Estoques (custo de aquisição, itens 11 e 38).pdf) — CFC.
- Lei Complementar nº 87/1996, art. 6º — substituição tributária do ICMS — Planalto.





